terça-feira, 26 de maio de 2015

O homossexual visto por entendidos

Carmem Dora Guimarães - Editora Garamond 
Parte de uma coleção sobre gênero e sexualidade, a editora Garamond traz uma tese de mestrado de Carmem Dora Guimarães, 1977, tornou-se este livro. Trazendo uma síntese da homossexualidade a partir de uma pesquisa antropológica com indivíduos que se definem como homossexuais, trabalhando sob a perspectiva do mundo homossexual como "anormal" e heterossexual "normal".
Carmem mostra como o mito do silêncio, de se esconder, o de não mostrar a sua identidade homossexual, seja no meio social, profissional ou familiar. No segundo capítulo, ela mostra a diferenciação do meio homossexual-heterossexual ou entre o meio homossexual-homossexual mesmo. Onde dentro da própria classe são definidas estruturas de poder, a bicha pobre escandalosa, o michê, o homossexual esclarecido e culturalmente desenvolvido, caracterizado como "normal" e, no fim a autora mostra as semelhanças.
No livro, o homossexual visto por entendidos, a autora toma como ambiente de pesquisa pessoas burguesas, que decidiram mudar para o Rio de Janeiro, trabalhando sob única perspectiva, onde em determinados momentos apresenta uma visão estereotipada, preconceituosa da própria classe homossexual.
A melhor citação do livro é onde a autora, com a perspectiva de Douglas, Foucault e Bordieu, onde a hierarquização acontece em qualquer meio, seja no meio homossexual ou heterossexual, trazendo consequências. A categoria homossexual é avaliada negativamente em oposição a categoria heterossexual.
A parte negativa do livro são as passagens em inglês, francês e espanhol, onde a autora não traz sua tradução, consequentemente tornando a leitura mais complicada para leigos de outros idiomas.
No primeiro capitulo a autora traz um aspecto real e frequente de homossexuais, o silêncio, o medo e o se esconder: A ideologia do silêncio. Transformando a homossexualidade como um desvio, uma coisa errada, uma doença, entre outras definições. Onde qualquer interesse sobre o tema é revestido de silêncio.
"No período de socialização infantil os 'pedagogos da sexualidade' manifestam explicitamente quais comportamentos, atitudes e objetos para cada papel sexual e de gênero, sancionando índices de transgressões a 'normalidade'".
A cultura brasileira como patriarcal e machista é a dicotomização e delimitação de papeis sociais, sexuais e de gênero - masculino e feminino.
No capítulo dois, a perspectiva de diferença para semelhança, onde a exigência de verificação do eu, como real e homossexual através de que o indivíduo só vai saber se é homossexual mesmo se experimentar, o que é ser heterossexual, onde a imposição da sexualidade é prefixada como exigência cultural e social.
Trabalhando a não aceitação ou assumir a homossexualidade perante as pessoas (de fora do círculo de amizade) ou dentro do próprio círculo de homossexuais (amigos).
A crítica a ações dos homossexuais, pesquisados por Carmem apresenta as visões preconceituosas que os próprios gays não deveriam ter deles mesmos, definindo que gays deveriam ter atitudes "normais" em determinados ambientes, como no trabalho - atitudes desviantes.
Sob a visão da sociedade, o homossexual é visto como uma pessoa doente, solitária, que precisa de ajuda ou companhia, que está a procura sempre e constantemente do amor homossexual, aquela pessoa carinhosa, amorosa, para a vida inteira.
No último capítulo, é visível a dicotomia e divergência das opiniões dos pesquisados a partir do meio homossexual, de como praticam uma segregação dentro de uma minoria, onde os mesmos reclamam da imposição de hierarquias, de relações de poder do meio heterossexual para com o homossexual, porém, o próprio meio homossexual procura formas de segregar a própria classe, praticando formas de relações de poder, de quem detém a cultura dita como "normal".

O livro serve como base para uma discussão fluente e intensa, eu adorei. Recomendo a leitura.